Baiana, mãe de 8 filhos, retirante que dormiu nas ruas de São Paulo no início dos anos 1990 e tornou-se líder do Movimento dos Sem-Teto do Centro. Já tirou quase 3 mil pessoas de moradias subnormais e dos baixos de viadutos, promovendo ao mesmo tempo inclusão social e promoção do bem-estar.

CONHEÇA QUEM É

Carmen Silva, de 59 anos, é coordenadora do Movimento dos Sem Teto do Centro. Baiana, filha de empregada doméstica e de militar, casou-se aos 17 anos e por mais de uma década sofreu violência doméstica do ex-marido. Aos 35, quando já era mãe de oito filhos, foi sozinha para São Paulo em busca de uma vida melhor para as crianças.

 

Era 1996 e Carmen percebeu que, em São Paulo, as oportunidades tinham sotaque, cor e  CEP específicos. Em pouco tempo, sem dinheiro para arcar com custos de aluguel, teve que morar na rua.  “Fui no encontro de um Fórum de Cortiços por insistência de uma senhora que conheci num albergue. Eu trabalhava de dia e ia dormir lá. Estávamos em situação de rua.” Na reunião, encontrou gente parecida consigo mesma: mulheres negras, mães solo, trabalhadores que tinham que escolher entre comer ou morar, famílias inteiras mostrando as cartas de ordem de despejo, contando que viviam em beira de córrego e lugar com risco de morte. "Era todo mundo arrebentado como eu, sem saída.”

 

Carmen, então, iniciou sua participação no movimento dos sem-teto quando morou, por seis anos, num antigo prédio do INSS, na avenida Nove de Julho. Passou a ter CEP e comprovante de residência, ainda que provisório. “Faz muita diferença! Sem endereço você não é nada. Não consegue abrir conta no banco, mandar currículo, fazer uma prestação de geladeira, nada.” 

 

Urbanista prática, Carmen já lecionou em cursos de Arquitetura e discute altivamente com autoridades dos setores público, privado e acadêmico. Ela enxerga a falta de moradia para pobres como uma continuidade urbana do regime escravista. “Abolição nunca existiu. Foi negado o acesso à moradia e à terra aos ex-escravizados. Também aconteceu com os índios e acontece hoje com todos os excluídos desse sistema que não quer perder sua mão-de-obra barata”, diz. E completa, com uma risada solta e sem meias-palavras: “O que querem de nós? Que a gente se contente com fome e favela? É ruim, hein!”.

 

Na esfera da administração pública, foi coordenadora do Conselho Participativo da região da Sé na cidade por dois biênios e em 2018 foi conselheira municipal e estadual de Habitação e das políticas públicas para mulheres. Ainda, em 2019, coordena o conselho de gestão de duas quadras que ficam bem o meio da Cracolândia. Além coordenar o MSTC, fez carreira por 20 anos na mesma empresa de corretagem de seguros. Foi seu primeiro emprego na cidade e ela segue como prestadora de serviços do empresário. 

 

Hoje, Carmen divide as contas entre cinco familiares. Eles pagam um aluguel de R$ 1800 num apartamento no centro. “Já não tenho mais necessidade de morar em ocupação e tirar lugar de quem precisa”, diz ela. Ela aguarda financiamento de uma moradia própria no antigo Hotel Cambridge, hoje Residencial Cambridge, um dos prédios que ocupou e viveu em condições precárias por quatro anos.

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